quarta-feira, março 30, 2005


As águas estagnadas impelem-me sempre para a sua perturbação Posted by Hello

quarta-feira, março 23, 2005

Como saber ao certo o que quer? Ora está bem, ora tudo parece desmoronar. É isso que sente agora que enfrenta o pior dos seus receios: a solidão. Adormece momentaneamente mas acorda sobressaltado com os sonhos que agitam a noite. Não sabe o que fazer. Conta os minutos como quem conta grãos de arroz, e parecem não terminar. Queria voltar ao momento em que decidiu deixar o tempo passar, mas também a hora passou. Nada pode fazer senão deixar-se embalar pelos sons da noite, pelo medo da escuridao, pela tenebrosa solidão. É como uma brisa fresca que lhe sopra no pescoço. Pensa que não pode olhar de frente essa brisa. Puro receio. Os minutos continuam a passar. Um dia, ou uma noite, a brisa será mais forte, ou mais fria. Por quanto tempo se esconderá na ilusão que o tempo tudo apaga? Se ao menos as lágrimas não lhe toldassem a visão, poderia vislumbrar as estrelas.
Para onde ir se amanhece com amargura na alma?

segunda-feira, março 07, 2005


Caleidoscópio Posted by Hello
Espreito o caleidoscópio e visualizo essa mistura de cores. É como atravessar o caminho entre os mundos. Alguma surpresa e muito espanto com o que encontro no final desse rodopio. Pequenas moléculas que ondulam ao sabor do vento. Visualmente é tão apelativo que me perco. Deixo-me levar inteiramente para esse mundo de sonhos, de imaginários visuais.

terça-feira, março 01, 2005

Por vezes deixo apenas o frio da noite tomar conta de mim. Embalo-me nos seus pensamentos enquanto procuro aquecer a alma à luz de milhares de estrelas. Aqui encontro paz, encontro um caminho a seguir. Sinto-me perdida tantas vezes que não sei onde estou. Penso que é Lisboa, mas o frio que sinto leva-me para mais longe.
Dou por mim a abraçar aqueles que amo. Ou a passar apenas um dedo no seu rosto. A limpar lágrimas de saudade... ou solidão. São pequenos gestos acompanhados de uma melodia suave quase transparente porque se confunde com desejos, paixões e sonhos. Sim, são apenas sonhos. Mas são tão reais que acordo como se tivesse estado lá longe entre montanhas cobertas de neve e vento gelado no rosto.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

and so it is
just like you said it would be
life goes easy on me
most of the time
and so it is
the shorter story
no love no glory
no hero in her skies
I can't take my eyes off of you

and so it is
just like you said it should be
we'll both forget the breeze
most of the time
and so it is
the colder water
the blower's daughter
the pupil in denial
I can't take my eyes off of you

did I say that I loathe you?
did I say that I want to leave it all behind?

I can't take my mind off of you
my mind
'til I find somebody new


Cada vez que oiço o "Blower's Daughter" do Damien Rice não sei se chore se ria...
Toda esta melancolia na sua voz me transporta para um lugar de onde não me apetece sair. Ali permaneço até que alguém bata à porta, e me faça regressar.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Que te aconteceu soldado? Não voltaste a marchar neste campo de batalha. Acaso foste ferido? Sei que é noite, mas o maqueiro está vigilante. Vê como observa os feridos. Vê como te observa.
«Agarra-te, Daniel! Acho que vou conseguir aterrar».
O avião balança no ar, está quase, quase a chegar ao chão.
«Ohh!»
O avião de riscas vermelhas ganhou vida própria, se é para ir para a esquerda, começa a dar voltas sobre si mesmo, se é para aterrar, vira à direita.. Simplesmente, não é possível comandá-lo.
A luz vermelha não pára de piscar. Algo está errado.
«Não, Daniel, não posso ir à janela agora. Não vês que o avião está descontrolado!»
«Mas as asas...»
«Já disse que não posso agora!»
«Mas é um pássaro!»
«Que disparate é esse?»
«O avião é um pássaro! Não vês as asas? E o bico?!»
«Endoideceste foi? Deixa-te de brincadeiras e ajuda-me a aterrar antes que a Susana acorde.»
Mas Martinho não vai conseguir parar a tempo. O avião de grandes asas acaba agora mesmo de sobrevoar a cabeça da Susana. Se ao menos fizesse menos barulho. Vai acordá-la com certeza!
Susana levanta a cabeça da almofada.
«Bom dia, Susana!»
«Olá Martinho... Daniel».
Bonita e elegante, é uma mulher de 32 anos, com grandes olhos amendoados. Por sinal, estão ainda maiores neste momento. Hesita. O que é aquilo na mão de Martinho?
«Que fazem os dois?», questiona enquanto se levanta do sofá. Desde sexta feira que dorme na sala porque o quarto cheira a tinta.
«Eu bem te disse que ela não ia gostar», diz Daniel, e virando-se para Susana explica. «Eu quis libertar os pássaros mas o Martinho insiste que temos de ir de avião, porque só os podemos libertar no cimo da montanha. E eu expliquei-lhe que os aviões não voam tão alto quanto os pássaros. E quando começam a subir muito alto ficam descontrolados. E foi o que aconteceu. O avião ganhou asas e quis voar como um pássaro livre e já não consegui libertar os meus pássaros porque o Martinho deixou o avião sobrevoar a tua cabeça e foi aí que ele perdeu o controlo.»
Martinho sorri mas nada diz. Afinal, é apenas um avião de papel na sua mão.


Agora experimentem escrever esta história num autocarro enquanto as pessoas lêem curiosas. Simplesmente maravilhoso! E tudo isso culpa desse genial filme À Procura da Terra do Nunca que abriu a porta à fantasia.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Carta

Quando as palavras surgem é melhor deixá-las sair em turbilhão. Sei que não aceitas tudo o que digo, mas nem sempre consigo travar o pensamento e adivinhas sempre o que penso. Os anos passam mas continuamos na mesma, sempre à espera que o outro caia em falso. Não devia ser assim, mas insistimos neste jogo. Nunca sei o que esperar de ti. E quem sabe se o contrário não acontece também...

Certezas nunca as tive, apenas desejos. E continuo a desejar-te muito. Sinto falta da tua presença, do teu toque, mas o último olhar que trocámos continua cravado no tempo. Pelo menos no meu tempo. Porque não deixámos as palavras surgirem nessa altura? Sei que muitas vezes o melhor é deixar o tempo passar e deixá-lo cravar em nós a sua lança da mudança, para conseguirmos voltar a proferir palavras ousadas ou quem sabe olhar-nos novamente.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Al otro lado del río

Quantas vezes remei para a outra margem porque via uma luz que me puxava até ela? Mas sempre que lá chego, a luz volta à margem de onde parti.
Sou como barca errante entre margens perdidas. E remo, remo. Remo sempre.

sábado, outubro 30, 2004

Lost in Translation

Não resisto e digo-lhe o quanto gosto do seu sorriso. É um sorriso meigo e espontâneo que me aquece e me faz também sorrir. É como se de repente me fizessem um carinho. Não é paixão. É ternura. E é também das poucas coisas que não precisa tradução.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Sinfonia

Diz-me o que nos aconteceu. Deixámos de brilhar mutuamente e tornámo-nos estranhos um para o outro. Teu abraço deixou de ser o meu amparo. Tuas mãos abertas deixaram de percorrer o meu corpo com o mesmo carinho e sedução. Teu destino deixou de ser o meu e o nosso local secreto desapareceu por entre as brumas. Será que lutámos o suficiente contra o silêncio que se impôs entre nós? Talvez não se tenha fortificado sozinho. Mas deixei de perceber as palavras que proferes e os sinais que antes tinhamos deixaram de fazer sentido.

Agora tudo está tranquilo à nossa volta mas permanecemos na chuva. Nada mais há aqui. Nada mais há a dizer. Chove, e é melhor partir. De alguma forma falhou este nosso plano. Há muito tempo que o final estava escrito e esta foi apenas a nossa Sinfonia.

terça-feira, outubro 19, 2004

Cor de burro quando foge

É como está o tempo hoje. Sempre gostei desta expressão para usar quando não se sabe muito bem que cor dar, seja a que for. E quando vinha pela estrada fora a caminho de casa, vim contemplando as nuvens numa correria por cima de mim, os tons de céu, todos cinzentos, as árvores a serem verdadeiramente molestadas pela ventania, que não abranda a pedido. As folhas, muitas folhas cobrindo o chão a gosto do vento. De facto o tempo está directamente associado ao humor. E, agora que penso nisso, hoje, também estou cor de burro quando foge.
By Silver

domingo, outubro 17, 2004

Comboio

Andar de comboio é sempre uma aventura. Acontece todo o tipo de situações caricatas, que nos dão vontade de sorrir e quem sabe dar uma boa gargalhada. Mas não é isso que torna a viagem tão interessante. É a troca de olhares. Confesso que adoro esta cumplicidade. Basta um brilhozinho nos olhos e o momento fica registado para sempre.

segunda-feira, outubro 11, 2004

Plano superior

Damos demasiada importância aos acontecimentos. Acho que é por isso que acabamos por admitir, em momentos de reflexão profunda, que as coincidências não existem. Porque de alguma forma temos necessidade de criar ligações entre factos que aparentemente estão isolados. Mas temos que forçosamente relacioná-los. Não precisamos disso para sermos felizes, mas ajuda-nos a ter uma visão clara das peças do puzzle.
É como aquela música que queríamos tanto ouvir e que já há dois dias não conseguimos apanhar na rádio. E de repente ali está, no zapping da televisão e ao primeiro acorde lembramos tudo, do primeiro momento em que a ouvimos e começamos a recordar tudo o que pensávamos ter esquecido. E pronto! Não há coincidências. Porque recebes mensagem daquela pessoa que estava contigo naquela situação. Ou toca um sino, ou ouve-se um grito, há um clique e Bang! De repente somos como Pedro depois do galo cantar: amargurados, tristes, saudosistas...
E temos vergonha de admitir o erro, de admitir que eram mesmo dois factos isolados. Acabam as coincidências e pensamos estar mais próximos de todo aquele plano superior.

Acaso

Estes pequenos factos que se vão relacionando, estes encontros casuais que acontecem (quem sabe como e porquê) são de facto momentos de ternura, quando a inocência nos toca verdadeiramente. E só aí conseguimos ver a vida do "outro lado do tapete". E tudo faz sentido. Porque nos deixamos ser inocentes, deixamos de ter receios do mundo. E de nós.

domingo, outubro 10, 2004

O Deus das pequenas coisas

De vez em quando, algo nos cerca, regateando subtilmente a nossa atenção. Às vezes, mesmo quando parecemos envenenados e absortos na estridente vulgaridade deste nosso quotidiano, há algo que nos cumprimenta de forma afável, se apresenta e nos conquista para sempre. Esses momentos, esses impactos vigorosos que ficam eternamente registados na nossa vida, na nossa alma, e influenciam a nossa forma de ver o mundo, felizmente, se prestarmos atenção, ainda não são tão raros assim. É a música, é a pintura, é uma conversa, é um livro, são muitos livros, é um beijo, são muitos beijos, é uma boa refeição, um bom vinho, é uma fracção do silêncio. É um filme...

Há poucas coisas que nos fazem felizes. Diria que são pequenas coisas, pequenos acontecimentos na nossa vida. São pequenas chamadas de atenção, como se de repente tivessemos entrado num outro mundo. E aí percebemos que a vida é mesmo simples. Se realmente conseguirmos ver a beleza destas pequenas coisas, viveremos sempre encantados com a vida. E a vida connosco. Sim, há pequenos momentos de plena felicidade...

sexta-feira, outubro 08, 2004

Cerejas

Ah! Se houvesse cerejas hoje! Que bom seria poder saboreá-las até ao último raio de sol. Era um novo começo, um novo sabor na vida.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Estrondo

Não te esqueças de fechar a porta, devagar por favor que da última vez que conversámos sobre o assunto bateste a porta com tanta força que o quadro que tinha pendurado no corredor caiu seco sobre os tacos de madeira. Não é pelo quadro, nem pela escolha forçada de uma nova cercadura, é pelo soar do estrondo que fica dias e dias a ecoar na minha cabeça juntamente com todas as palavras amargas que não és capaz de evitar de todas as vezes que voltamos a conversas que não deviam ser repetidas, pelo menos para já, que as almas estão ainda agitadas porque também não se volta ao mar enquanto a tempestade não acaba.

a propósito da Chuva

Se houvesse forma de conhecer as palavras sem as proferir, haveria solidão e silêncio em torno da expectativa do amanhã. Será que Lisboa terá chuva novamente? Será que há uma nova carta à qual queremos desesperadamente responder mas não encontramos forma de o fazer. Sempre as palavras que nos faltam e que no entanto nos enchem e preenchem constantemente deixando-nos à deriva.

Maçã

Adão comeu uma maçã da Árvore do Conhecimento. É uma pena que as maçãs tenham acabado.